Entre a revolução e o pasto: estaríamos, com as manifestações eclodindo por todo o país, assistindo a um revival do que fora, nas décadas de ditadura, ou, mais recentemente, no movimento “Fora Collor”, onde protagonizam a juventude revoltosa e, ainda, os remanescentes da luta do processo de democratização e do impeachment?
A pergunta é pertinente porque, ao assistirmos noticiados na mídia, a movimentação das massas – amorfas ou não – que espalha nas ruas uma classe operária, urbana e financeiramente sustentável, é nos dado a ver também, com algum espanto, com que cara ficam os políticos; partindo do ponto de quando deu-se a reprimenda que serviu de estopim, ou seja, alguns factos erigidos aqui e acolá, mas os quais, se ajuntados numa única proposta – como as questões de gênero, étnicas, de segurança e saúde -, problemáticas seculares, deveriam servir de pretexto para as manifestações.
Infelizmente, não é bem por aí.
Pessoalmente, acredito que os protestos – embora legitimados pelo momento democrático que vivemos com o PT, há de se convir mesmo entre os mais exaltados – fogem em algo de sua origem, em uma palavra, o domínio global do movimento estendido a cada primavera que vivem alguns países (Turquia, Síria, Brasil, etc.) participa também à crise econômica vista na Europa; estes reclames indicam a escala na qual prostram-se os manifestantes para afirmar da luta ser mundial; globalizada e, portanto, de seu interesse.
É claro. Há bastante verdade nisso. Muito embora, observamos nos dias conseguintes às primeiras manifestações, um desânimo mesmo na efervescência popular. No lugar de metas, vemos rigidez em protestar, e isto leva os manifestantes a quase uma inopinada intumescência sem causa; haja vista os valores idealistas estarem bastante dispersos – quando não extintos -, o movimento sustenta seu princípio, no fato de que é um mister e nada mais, portanto devendo ser seguido cegamente e sem questionamentos.
Ora, mesmo internamente, para cada ponto de protesto de uma dita revolução, deve haver um contraponto para que haja um equilíbrio de forças: é dialético. Não obstante, não é o que vemos.
Daí, partimos para a conclusão. Reivindicar melhorias no sistema nunca deixou de ser uma saída para o problema principal que envolve a participação nas causas revolucionárias; protestar, muito menos. Agora, reivindicar para si o direito de manifesto por causas invisíveis, ou melhor, sem ser dada ao encargo dos manifestantes a necessária tessitura da emanação política; e, devendo esta ser a principal fonte das reivindicações, perde-se em qualidade num elitismo deveras explícito, por uma quantidade que, se eficiente apenas em parte, não cumpre com o objetivo de tornar realmente possível a mudança, o que somente ocorre ao fim de um plano logrado a médio e longo prazo, e, salvo aqui as questões macro onde residem as teorias conspiratórias, etc.
Logo, estarmos tão próximo e ao mesmo tempo tão longe de atingirmos nossos objetivos, nos põe na berlinda – mais uma vez. Não é com uma projeção de dimensões populistas que venceremos numa luta; não subiremos ao poder da noite para o dia, e ao que tudo indica, seguiremos com nossa vida ainda que estando nas ruas protestando, desvelando todo dia um novo motivo para reclamar; no lugar de estimularmos as instâncias menores, mais próximas e mais suscetíveis à ações incisivas, no lugar do cotidiano, na célula da sociedade – a família -, na igreja e nas comunidades; no meio artístico e no fazer diário, onde, todos sabemos, é o verdadeiro lugar da mudança.
Pedro Costa
Publicitário pela Universidade Federal do Ceará
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